segunda-feira, 19 de outubro de 2009

'É preciso elevar o padrão ético'

Gilberto Velho critica Lula por defender aliados suspeitos de atos ilícitos
ENTREVISTA (por Cláudia Lamego)
Ao defender aliados envolvidos em escândalos e investigados por crimes, o presidente Lula legitima um padrão ético e moral discutível no país. A opinião é do antropólogo Gilberto Velho, que criticou ontem Lula por relativizar supostos crimes praticados na República. Para ele, é preocupante, num “país que vive uma crise de valores”, que Lula minimize a prática de atos ilícitos. Segundo o antropólogo, as declarações de Lula são movidas por seus interesses políticos. “Tudo em nome de um projeto político e pessoal”, lamenta.
O GLOBO: Depois de pedir ao Ministério Público que tenha cuidado com o a biografia dos investigados, o presidente Lula disse ontem que é preciso relativizar os crimes. O que o senhor achou dessa declaração?
GILBERTO VELHO: Para começar, não cabe ao chefe do Executivo orientar os outros poderes sobre como eles devem proceder. Isso é preocupante com relação à distribuição do poder no país. Ele não pode ir à posse do procurador-geral e orientar o trabalho dos procuradores. A outra questão é que, ao minimizar faltas graves dos aliados, ele está legitimando um padrão moral e ético que é no mínimo discutível. O que está se propondo é que tudo seja investigado, não está se condenando com antecedência. Agora, houve uma série de episódios nos quais não havia dúvida sobre faltas e ilegalidades, e ele, mesmo assim, defendeu. Qual é o padrão moral que está sendo sugerido pelo presidente? É de um pragmatismo... não sei como classificar isso. É algo como a idéia de que é possível minimizar meios ilícitos, que são condenáveis sob qualquer perspectiva ética mais séria e conseqüente.
O GLOBO: O presidente dá mau exemplo ao defender suspeitos de atos ilícitos?
GILBERTO VELHO: Sim. Não é isso o que se espera de um chefe de Estado, que tem força e popularidade grandes, num país que vive uma crise de valores imensa. É um pouco decepcionante que ele não esteja demonstrando preocupação com a corrupção, sobretudo quando seus interesses políticos são prejudicados. É lamentável que ele confunda seus interesses com os do país. Tudo em nome de um projeto político e pessoal.
O GLOBO: Num país com tanta impunidade, qual o impacto desse tipo de conduta do presidente?
GILBERTO VELHO: Há muito tempo venho chamando atenção sobre os deslizes, irregularidades, falta de responsabilidade e de compromisso com a verdade no nosso país. Aí, vem o presidente e minimiza tudo. Ele, como pessoa, pode ter suas opiniões, e podemos discordar delas. Mas, falando como chefe de Estado, é preciso elevar o padrão ético do país. A pergunta que temos que fazer é: é importante ou não que os governantes pautem seus comportamentos pela ética? No fundo, funciona aqui ainda a máxima de que os fins justificam os meios. Achar que vale tudo porque é melhor para seu grupo ou partido é muito assustador.
O GLOBO: E quando o presidente aparece ao lado de políticos que ele mesmo já condenou no passado, como o senador Fernando Collor?
GILBERTO VELHO: Como é possível ele aparecer abraçado com o Collor, com o Renan, com o Jader Barbalho? O país se mobilizou contra o Collor, que foi eleito agora pelo clientelismo. E Lula se alia a esse clientelismo mais atrasado. Então, o presidente passa uma esponja sobre tudo o que aconteceu e toda aquela mobilização da população não tem mais valor? É muito triste.

PUBLICADA EM “O GLOBO”, 24/07/2009.

O BAILE E A CIDADE

Gilberto Velho*
Um dos principais desafios da vida na grande cidade contemporânea é o convívio das diferenças. Vivemos em metrópoles complexas, diferenciadas, com múltiplos estilos de vida, gostos e costumes. Os exemplos são infindáveis e passam por trabalho, religião, origem regional, preferências políticas, esportivas, lazer em geral, etc. A questão do funk volta à tona com a retomada de antigas acusações que o associam à criminalidade e à violência. Por outro lado, hoje existe um movimento cultural que defende e valoriza o funk não só como música, mas como estilo de vida, atitude e expressão artística. Certamente, uma política exclusivamente repressiva e policial está condenada ao insucesso e só acirrará tensões e conflitos sociais. Parece inquestionável que existem situações em que criminosos estão presentes nas festas funk, eventualmente patrocinando-as. Caso existam situações de violência e crimes, cabe à polícia investigar e, caso comprovado, tomar providências. Mas a generalização apressada e simplista significa desqualificar, estigmatizando todo um conjunto de manifestações associado ao lazer, à festa, e à sociabilidade de boa parte da população do Rio de Janeiro.No entanto, também é indiscutível que há um problema de convivência entre o horário e o som poderoso desses bailes em relação as suas vizinhanças, seja dentro ou fora das comunidades. Diariamente, lemos nos jornais cartas de leitores com reclamações quanto à impossibilidade de repouso e sono de milhares de pessoas prejudicadas pelo total desrespeito às normas básicas de convivência. Nos fins de semana isso fica mais evidente. Na sexta-feira, por exemplo, milhares de moradores de Copacabana e Ipanema são obrigados a ouvir em alto volume o som que vem dos morros.
Normalmente, começando por volta das dez horas da noite, isso se prolonga até seis horas da manhã. Parece-me um caso exemplar para buscar formas de diálogo e de aperfeiçoar nossos padrões de cidadania com pretensões à civilidade. É claro que a solução não é uma operação policial com armas pesadas mas passa, necessariamente, pela ação do poder público. Este deveria desempenhar o papel de mediador entre os freqüentadores e patrocinadores dos referidos bailes e os moradores de suas vizinhanças para se chegar a algum tipo de acordo e negociação. Diga-se, de passagem, que o desrespeito à lei do silêncio não é exclusivo dos bailes funk, mas acontece, por exemplo, nos famosos plays de prédios de classe média, embora sem a mesma intensidade e freqüência. Agora mesmo, no período de festas juninas, aceitou-se como normal os estouros de bombas e foguetes por parte de petizes estimulados por seus devotados pais e avós. Existe, assim, um problema geral de falta de civilidade e capacidade de convivência e respeito mútuo dentro de nossa cidade.
Os bailes funk, sem dúvida, como estão transcorrendo hoje, constituem um problema de convivência com vizinhos que simplesmente querem dormir e se recuperar de suas atividades rotineiras. Mas é fundamental que para lidar com essa questão não se retorne a um padrão meramente repressivo e policialesco. Se há crime e violência comprovados, providências têm de ser tomadas pela autoridade policial. O grande avanço seria estabelecer canais de comunicação e de diálogo que permitissem que as diferenças fossem respeitadas sem que fossem agressões de um grupo contra outro.
* Antropólogo
PUBLICADO EM "O GLOBO", 20/07/2009, p. 7.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

RUTH CARDOSO

Gilberto Velho*


Está completando um ano do falecimento da doutora Ruth Cardoso. Era pessoa sóbria e discreta, avessa a homenagens. Portanto, relembrá-la é, sobretudo, sublinhar seus estilo e atitude que são cada vez mais raros em uma sociedade em que o exibicionismo e o auto-elogio são moeda corrente. Vive-se o espetáculo do mau gosto e do oportunismo, em contraste com o trabalho e generosidade de Ruth Cardoso que produziam resultados, sem maiores estrépitos e foguetórios. Como acadêmica, sempre se distinguiu pelo respeito às obras realizadas e, paralelamente, pela curiosidade e estímulo ao novo e à ousadia. Isso não impedia que sustentasse pontos de vista, exercesse a crítica, preocupada com o diálogo em que a civilidade não se opunha à firmeza.
Sempre esteve voltada para questões de política social, sem abrir mão de rigor acadêmico. Orgulhava-se de sua vivência universitária, mas isto jamais a impediu de estar atenta e engajada nas grandes questões políticas, como a resistência contra a ditadura. Estudou e participou de movimentos em defesa de minorias e setores oprimidos da sociedade. Entre outras causas, há que destacar a sua atuação na política de gênero e o seu engajamento nas lutas das mulheres.
Como esposa de presidente da República, reinventou o papel oficial, desempenhando tarefas em que sua condição de cientista social e cidadã engajada contribuiu, decisivamente, para inovações e fortalecimento de políticas sociais. Prosseguiu essas atividades de outras formas, uma vez encerrado o mandato de Fernando Henrique Cardoso. Até sua morte, permanecia atuante, construindo instrumentos para enfrentar a pobreza e a desigualdade social.
Deixou exemplos e lições. Quem a conheceu e acompanhou sua trajetória gostaria que, de algum modo, essa memória permaneça viva, se contrapondo à vulgaridade da corrupção, do imediatismo e da mesquinharia política.


*Antropólogo

VIOLÊNCIA E IMPUNIDADE

Gilberto Velho*



Nos últimos dias a cidade do Rio de Janeiro viveu mais alguns episódios assustadores de violência que se somam a tantos outros nos últimos anos. O novo assalto e a agressão a Marcelo Yuka, o casal sendo arremessado da Avenida Niemeyer, depois de ser seqüestrado e alvo de repetidas agressões, universitários baleados, confirmam que continuamos vivendo uma situação de insegurança e vulnerabilidade.


Não há como desprezar as características individuais que tornam alguns bandidos, especialmente cruéis e sádicos. Pessoas são assaltadas, roubadas, agredidas e, mesmo sem reagir, freqüentemente, são assassinadas com requintes de brutalidade. “Tribunais do crime” podem até atuar contra criminosos que ultrapassem ou quebrem regras do jogo, confirmando o poder exercido pelas redes e gangues de bandidos. No entanto, é preciso enfatizar, mais uma vez, que o fenômeno que estamos enfrentando é o do desenvolvimento incontrolável de uma cultura da violência. Esta é produto da combinação de diversas variáveis, como a desigualdade social, a desordem urbana, a corrupção de órgãos públicos, a ineficiência e cumplicidade de setores da polícia com o próprio crime e a ausência de políticas sociais contínuas e sérias como na escandalosa situação da área da saúde. Por mais que já tenha sido analisado e denunciado, um dos pontos focais, talvez o principal, seja a falência da educação, particularmente a pública. As péssimas condições de trabalho dos professores e a precariedade material produzem um ensino totalmente inadequado para dar um mínimo de esperança e condições de sociabilidade para a maior parte da população pobre do país. No Rio de Janeiro, isto é flagrante e são mais do que conhecidas as histórias de situações que inviabilizam o funcionamento minimamente razoável de escolas de ensino básico e médio.


Não há dúvida de que o que se passa na nossa cidade e no nosso estado depende, em grande parte, do governo federal, da sua incompetência e falta de vontade de empenhar-se com vigor para debelar ou, pelo menos, melhorar situação tão dramática que, entre outras conseqüências, reflete-se na cultura da violência. Esta é fomentada nas favelas, na periferia e nas próprias escolas. Não nos iludamos alocando todos esses problemas às camadas mais pobres da sociedade. Embora estas vivam de modo mais intenso e rotineiro o aprendizado da crueldade na vida cotidiana, também em camadas médias e elites temos múltiplos exemplos, entre jovens, de demonstrações de irresponsabilidade social e indiferença humana. Já são numerosos os episódios de brutalidade exercida por filhos de famílias de quem poderia se esperar um compromisso ético elementar.


Todos os fenômenos na vida social, de alguma maneira, se ligam uns aos outros. É impossível ignorar que a impunidade pública de infratores e criminosos, incluindo políticos e personagens notórios contribui para o quadro geral de descrença dos valores básicos de cidadania. Este fenômeno continua sendo um dos principais desafios para a construção da democracia em nosso país.


* Antropólogo



PUBLICADO EM O GLOBO, 12/03/2009.

A IMAGEM DO EXÉRCITO

Gilberto Velho*

O trágico episódio do Morro da Providência, além da brutal violência que se soma a tantas outras, traz à tona uma questão fundamental para a frágil democracia brasileira – o lugar das Forças Armadas. Não só o Exército, mas a Marinha e a Aeronáutica, ficaram com suas imagens gravemente conspurcadas pela atuação de seus órgãos de segurança durante o regime militar, produto de uma conspiração que uniu setores militares com variados grupos da sociedade civil. O pior nesse período foi a ação desencadeada pelos famosos “setores radicais” que, com o beneplácito de alguns oficiais-generais, permitiram que oficiais de diversas patentes comandassem operações que envolveram seqüestros, tortura e assassinatos. Isto não significa que ignoremos que setores mais radicais de oposição ao regime militar, também possam ter utilizado métodos truculentos e extremamente agressivos. No entanto, os militares de que falamos, utilizaram recursos, instalações, armas e todo um sistema oficial como pano de fundo, para implementar medidas repressivas que ultrapassavam qualquer limite de ética e de civilidade. Sabemos, também, que grande parte do oficialato não foi cúmplice dessas ações e muitos, inclusive, as condenaram. O fato é que além da pressão da sociedade civil e de outros países e agencias internacionais, houve uma reação a partir das próprias Forças Armadas, especialmente no período do Governo Geisel, para controlar as ações violentas que rompiam não só com a democracia, mas com os próprios princípios da hierarquia militar. É, pelo menos, discutível que torturadores e assassinos não tenham sido julgados. Mas há uma série de argumentos em torno da idéia de uma anistia “ampla, geral e irrestrita”.
Com a volta dos governos civis, houve uma lenta e progressiva mudança das atitudes e postura dos representantes das Forças Armadas. Cada vez mais pareceu haver uma nova concepção de suas relações com a sociedade civil e com os valores democráticos em geral. Progressivamente, foi se restabelecendo uma imagem mais positiva e respeitável em que as ações construtivas, filantrópicas, de apoio social, de socorro a emergências e catástrofes, participação em obras de interesse nacional melhoraram significativamente a imagem dos militares perante a opinião pública. Assistimos, inclusive, a significativos gestos de reconciliação e reaproximação com a sociedade civil.
Portanto, uma ação criminosa comandada pro um oficial do Exército, em circunstâncias, no mínimo chocantes, põe em cheque essa imagem lentamente reconstruída. Pergunta-se como é possível haver uma quebra na hierarquia de comando que permite a uma pessoa que está sendo rotulada de “desequilibrada” desencadear um processo tão monstruoso que levou ao massacre e morte de três jovens. Esse argumento já foi utilizado em outros tempos. Não há como tentar disfarçar e dizer que a instituição não foi atingida por uma ação isolada. É necessário que isso seja comprovado de modo exemplar para permitir até que, ao repensar a gravidade da situação de segurança pública no Brasil, possa ser encontrado um lugar adequado para as Forças Armadas.

* Antropólogo

PUBLICADO EM O GLOBO, 30/06/08.

JUVENTUDE E VIOLÊNCIA

Gilberto Velho*

O que pode haver de comum entre jovens brancos de elite mortos num acidente automobilístico e jovens negros mortos em combates entre facções criminosas ou em embates com a polícia? Obviamente, a resposta imediata é que são todos jovens, entendendo-se por isso uma faixa etária que varia, imprecisamente, entre 15 e 24 anos. No trágico acidente da Lagoa as idades das vítimas variavam entre 17 e 21 anos. Na espécie de guerra que se trava nos morros e periferias das grandes cidades brasileiras, especialmente no Rio de Janeiro há, freqüentemente, adolescentes ou mesmo o que estamos acostumados a classificar de crianças. Já é rotina o envolvimento de meninos de 12, 13 anos nas ações criminosas estando sujeitos, portanto, às balas perdidas ou direcionadas.
A busca de explicações de natureza bio-hormonal para caracterizar a juventude como irresponsável, pouco afeita à prudência e a cuidados, mesmo quando acrescidas de algumas tinturas sociológicas pouco nos consolam em relação a esse quadro de grande devastação. Os jovens brancos de classe média morrem em proporção bem menor do que os negros, pardos, mulatos ou nordestinos das camadas populares. Não há dúvida de que a desigualdade social e as precárias condições de vida nas favelas, e nos bairros pobres em geral explicam parcialmente esse quadro. Historicamente, os jovens, desde a Antiguidade mais remota, constituem a categoria de guerreiros e em várias ocasiões, as suas perdas foram tão grandes a ponto de ameaçarem a estabilidade da vida social, como na Segunda Guerra Púnica, em Roma, a Guerra Civil norte-americana e a Primeira Guerra Mundial, sobretudo, com seus efeitos sobre a elite britânica da época. Ou seja, a juventude, muitas vezes mas, nem sempre a mais pobre, serve de carne de canhão nos confrontos militares.
O fato de não estarmos vivendo uma guerra convencional não elimina os perigos a que estão submetidos os membros dessas faixas etárias. Há muitas explicações, mais ou menos interessantes, em que se misturam biologia, psicologia, sociologia para explicar esse estado de coisas. O que podemos constatar, tanto para os pobres quanto para os prósperos é a falência comum de mecanismos e processos de educação e socialização que incutissem padrões básicos de civilidade, autodisciplina e controle capazes de ajudar a enfrentar as dificuldades, frustrações e tentações da vida contemporânea. Sem querer colocar tudo no mesmo plano social, é inegável, por exemplo, que os desejos e aspirações de consumo, seja por um par de tênis, por uma arma, por drogas ou por um super carro, sem contar as pretensões erótico-amorosas, estão entre as causas principais de um descontrole que produz vítimas nas circunstâncias as mais variadas.
Não me parece produtivo simplesmente culpabilizar famílias e supostos responsáveis. Estamos lidando com um complexo sócio-cultural em que essas famílias de vários níveis sociais, as escolas, desde o fundamental até o universitário, as Igrejas, a religião em geral e, principalmente, o poder público apresentam desempenhos contraditórios e inadequados, expressando uma ausência de consenso mínimo em torno de valores e paradigmas. A falta de liderança, a desmoralização das elites, sobretudo as políticas, a impunidade generalizada e o desprezo por princípios e critérios éticos-sociais constituem o campo propício para a desvalorização da vida humana. À falta de sensibilidade social soma-se uma indiferença pelas condições de vida, riscos e destino dos outros, mais ou menos próximos.

*Antropólogo
PUBLICADO EM O GLOBO, 23/09/2006.

DE QUEM É A CULPA?

Gilberto Velho*

A violência e o medo sempre acompanharam a humanidade. Desde os tempos mais remotos as disputas e os conflitos, nas mais variadas sociedades e culturas, apresentavam potencial de irrupção de agressividade física. No Ocidente, Clistenes e Sólon ficaram como personagens fundadores da democracia ateniense através do estabelecimento de um espaço público em que as disputas entre linhagens e outros grupos de parentesco pudessem encontrar um locus de negociação que permitisse a continuidade e o fortalecimento da vida social. Entre outros objetivos, procurava-se controlar um sistema de represálias baseado na vingança que mantinha a sociedade permanentemente insegura e vulnerável. Desde então, na própria história de Atenas e da Grécia, a violência longe de desaparecer, reapresentou-se em vários momentos e situações, como na Guerra do Peloponeso e nas Guerras Pérsicas. Portanto, tratavam-se de conflitos internos e externos que colocavam o ideário de democracia permanentemente em cheque diante da alternativa dos tiranos e da dominação estrangeira. Ficou, no entanto, essa herança de que por mais difícil a tarefa era preciso tentar criar e manter contextos e situações em que através da lei fosse possível congregar cidadãos em busca da resolução de suas diferenças.
Não se trata, evidentemente, de percorrer toda a História, mas de assinalar algumas idéias fundamentais que sobreviveram a todos os tipos de opressão e abuso de poder. O que estamos procurando hoje no Brasil é, diante de uma crise sem precedentes, buscar caminhos e soluções que preservem o projeto de democracia associado ao restabelecimento de uma ordem pública que garanta os direitos mínimos de cidadania. Infelizmente, os políticos, representantes da polis, revelam-se, cada vez mais, incapazes de responsabilizar-se e assumir esse desafio. Mesmo diante da terrível conflagração em São Paulo nos últimos dois meses, ponto culminante de um processo que atinge todo o país, não há sinais de providências e articulações em torno de uma ação efetiva que junte política social e urgente reorganização do sistema de segurança pública. Pior ainda, multiplicam-se as evidências de corrupção e desonestidade na vida política brasileira, desmoralizando-a ainda mais.
Nunca é demais lembrar que cabe ao Governo Federal, por seus recursos legais, materiais e simbólicos, liderar e coordenar o enfrentamento dessa grande crise que vivemos. Efetivamente, o que está em jogo é a atuação e responsabilidade do Estado Nacional que tem sido há décadas incapaz de assumir esse desafio por razões as mais variadas, mas que passam, principalmente, por uma visão política oportunista e imediatista.
O atual Governo Federal foi eleito com um Plano Nacional de Segurança Pública que, embora sujeito a possíveis críticas, é uma referência fundamental. Urge ativá-lo envolvendo Executivo, Legislativo e Judiciário e o poder público estadual e municipal. O mínimo que se pode esperar nesse ano de eleições é que os diferentes candidatos e partidos assumam um compromisso sólido e confiável com a construção de um projeto sério e corajoso de busca de paz social, combatendo tanto a gritante desigualdade quanto a ameaçadora violência. Hoje não há como evitar o temor de desagregação da sociedade brasileira.

*Antropólogo
PUBLICADO EM O GLOBO, 24/07/2006.