quinta-feira, 18 de março de 2010

IUPERJ: desafio e crise

Gilberto Velho*

Já há vários anos o IUPERJ (Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro), vinculado à UCAM (Universidade Cândido Mendes), vive um clima de insegurança institucional com repercussões que extrapolam a própria instituição. Isso se deve a sua importância e papel crucial nas ciências sociais brasileiras como um todo. Há mais de quarenta anos contribui, através de uma produção rica e diversificada, para o desenvolvimento da sociologia e da ciência política em nosso país. Sempre abrigou profissionais de diferentes perspectivas e orientações. Sua vida nem sempre foi pacífica, mas destacou-se pela contribuição acadêmica e política para o fortalecimento da área de pesquisa e ensino das ciências sociais.


O Brasil tem um sério problema de quadros que afeta gravemente suas possibilidades de desenvolvimento e consolidação democrática. O trabalho realizado no IUPERJ não só formou profissionais de excelente nível que atuam dentro e fora do país mas, também, foi, desde o seu início, um centro de debates sobre questões científicas e, relacionados a elas, sobre os problemas dos mais variados níveis da sociedade nacional. Não se limitou às fronteiras brasileiras mas, de vários modos, abriu espaço para uma perspectiva comparativa com outras sociedades de diversos lugares do mundo. A atuação de seus professores e alunos em congressos, seminários e encontros nacionais e internacionais lhe deu uma marca cosmopolita que poucas instituições podem ostentar. Entre outros pontos, há que destacar o forte papel desempenhado pelos iuperjianos na criação e consolidação da ANPOCS (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais), foco irradiador dos melhores padrões na área de ciências sociais. O IUPERJ vive uma situação frágil e ambígua em termos financeiros e institucionais. Várias soluções têm sido buscadas e esforços despendidos para encontrar saídas que lhe garantam estabilidade mínima que permita a manutenção de suas múltiplas e importantes atividades. Infelizmente, estamos vivendo um momento crítico, talvez o mais grave desde a sua fundação, quando o temor do fim da instituição assume contornos reais ameaçadores.


Como já disse, num país que tem problemas de quadros e com dificuldades de lidar com questões que prejudicam drasticamente a qualidade de vida de sua população, a orientação institucional do IUPERJ, com suas características múltiplas, faria uma falta de impacto incomensurável. As ameaças que pairam sob a instituição já são danosas, afetando os corpos docente e discente, além de seus quadros técnico-administrativos.


O Brasil já perdeu, na área das ciências sociais, instituições importantes, como o ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros) e o CLAPCS (Centro Latino-Americano de Pesquisas em Ciências Sociais). O primeiro caso foi decorrência da instauração do regime militar e o segundo produto de dificuldades administrativas e legais. É sempre doloroso lembrar o que significou a destruição da biblioteca do CLAPCS, a melhor do Brasil em estudos latino-americanos naquela época. É assustador pensar que algo semelhante possa acontecer com o patrimônio representado pelo IUPERJ. O que acontecerá com o seu pessoal, de todas as categorias, sua biblioteca, seus acervos de pesquisa, seus arquivos, documentação, e tudo mais que ali existe? Em vários planos essa ameaça é assustadora. Em termos brasileiros, em geral, representaria uma perda irreparável. Para o Rio de Janeiro, especificamente, seria mais um golpe de amesquinhamento e empobrecimento de suas instituições culturais. A comunidade científica, como um todo, através dos outros programas e instituições, de suas sociedades, como a ANPOCS (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais), a ABA (Associação Brasileira de Antropologia), as sociedades de Sociologia e Ciência Política, a SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) e a ABC (Academia Brasileira de Ciências), precisa manter-se em permanente vigilância em defesa da sobrevivência do IUPERJ nas melhores condições que puderem ser encontradas.


Para superar essa grave crise, continua-se dependendo do Governo Federal e dos Ministérios e agências responsáveis pelas áreas de ciência, cultura, educação e tecnologia. É absolutamente necessário que sejam vencidos os obstáculos burocráticos e jurídicos que dificultam uma saída honrosa que, efetivamente, seja um marco na luta em defesa dos melhores valores acadêmicos, humanistas e democráticos no nosso país.






*Professor Titular e Decano do Departamento de Antropologia do Museu Nacional / UFRJ
Membro da Academia Brasileira de Ciências

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Gilberto Freyre: Trajetória e Singularidade

ARTIGO PUBLICADO NA REVISTA "SOCIOLOGIA, PROBLEMAS E PRÁTICAS", N. 58, 2008, PP. 11-21


* Gilberto Velho


Nos últimos anos, vem crescendo a produção sobre a obra e vida de Gilberto Freyre (1900-1987). São diversos os autores, perspectivas e orientações. Incluem sociólogos, historiadores, antropólogos e críticos literários que retornam a antigas discussões e introduzem novas informações, dados e reflexões. Entre outros, sem nenhuma pretensão de esgotar, lembro de Cláudia Castelo, Édson Néri da Fonseca, Elide Rugai Bastos, Enrique Larreta, Guillermo Gucci, Hermano Vianna, Maria Lúcia Garcia Pallares-Burke, Omar Ribeiro Thomaz, Peter Burke, Ricardo Benzaquen de Araújo, Roberto DaMatta, Sebastião Vila Nova, Valéria Torres da Costa e Silva e Wamireh Chacon. Alguns o conheceram pessoalmente, trabalharam com ele ou o entrevistaram. Outros têm, fundamentalmente, uma relação com os seus textos. Não só livros e artigos, mas declarações e participação em debates e programas na mídia têm dado espaço e oportunidade a essas manifestações que ora retomam, ora inauguram pontos de vista, análises e avaliações. Não pretendo fazer uma análise detalhada de cada contribuição, todas com evidentes méritos mas, eventualmente, chamar a atenção para alguns temas e contribuições mais relevantes.


Inegavelmente Freyre construiu uma obra de grande complexidade e riqueza. Fazia questão de declarar que era, antes de tudo, um escritor. Não era uma boutadeou força de expressão. Foi um dos maiores prosadores da língua portuguesa. A sua obra, com a sua dimensão ensaística, é de enorme riqueza literária, destacando-se as suas elegância, simplicidade e clareza. Dito isso, trata-se de um dos maiores cientistas sociais do século XX, ultrapassando de muito as fronteiras brasileiras, tornando-se um dos autores mais consagrados e reconhecidos internacionalmente, atravessando várias áreas de conhecimento. Creio que esta é uma de suas principais características, não ficar preso a especializações, escapando às, nem sempre estimulantes, compartimentações disciplinares. Por tudo isso, seu trabalho mantém, ainda hoje, um caráter original e inovador.


Uma das constatações, que vem aparecendo de forma mais detalhada e sistematizada, é a grande amplitude de sua formação. É inegável que o seu próprio pai, Dr.Alfredo Freyre, professor universitário e intelectual humanista de formação erudita, foi já na infância de Freyre uma referência importante. Gilberto Freyre estudou e teve contato direto, durante sua estadia nos Estados Unidos, por ocasião dos seus estudos nas Universidades de Baylor (Texas) e de Colúmbia (Nova Iorque), com os grupos mais destacados das ciências humanas daquele país. Numa época em que as fronteiras disciplinares e departamentais eram mais fluidas, teve acesso, por exemplo, não só à antropologia e história de Colúmbia, mas também à sociologia de Chicago, associada à antropologia no mesmo departamento, até o final dos anos 1920.


Essa relativa fluidez permitia e estimulava o florescimento de debates interdisciplinares, com implicações para toda a área que classificamos atualmente como ciências sociais ou até, de modo mais amplo, para as humanidades em geral. A intelligentsia norte-americana do final do século XIX e primeiras décadas do século XX era fortemente marcada pelo darwinismo, ao mesmo tempo que alguns de seus importantes expoentes professavam ou vinham de famílias de religião protestante, como Albion Small e George H. Mead, figuras fundamentais da Escola de Chicago (Bulmer, 1984; Vila Nova, 1995; e Joas, 1997). Lembremo-nos que Freyre também, por um período de sua juventude, aproximou-se do protestantismo. Aliás, já em Recife estudara em um colégio protestante de onde partira para a Universidade de Baylor, no Texas. Essa combinação de evolucionismo e religiosidade, com todas as possíveis contradições, teve consideráveis implicações para o desenvolvimento de uma atitude e postura de reforma social. Mas é, sobretudo, no pragmatismo, com suas diferentes ênfases e correntes, que vai se encontrar a principal tendência do pensamento social norte-americano da época. Intelectuais do porte de William James e John Dewey assumiram um papel proeminente e liderança. O seu impacto nas ciências sociais foi decisivo, estabelecendo um campo de discussão para filósofos, sociólogos, psicólogos e educadores, entre outros. Portanto, durante a permanência de Gilberto Freyre em Colúmbia, os Estados Unidos viviam um período de grande criatividade na área das ciências humanas, tendo como um de seus focos principais a temática indivíduo e sociedade. Seja sob o ponto de vista da interação social, seja sob o ponto de vista de cultura e personalidade, produzia-se um volume de trabalhos e idéias que constituíram-se em importantes subsídios para a obra de Gilberto Freyre, que soube digeri-los e elaborá-los no decorrer de sua carreira, contribuindo, decisivamente, por sua vez, para esse campo de debates. Como intelectual universalista, bebeu em várias fontes, na história e na antropologia britânicas, na história e na escola sociológica francesas e no pensamento social e filosófico alemão, além da ciência social norte-americana, produzindo, assim, um perfil singular.


A conjuntura nos Estados Unidos, pós-Primeira Grande Guerra, apresentava essa característica de ser favorável à convivência e encontro de várias tradições intelectuais. O contato com a Europa era freqüente e intenso, com intercâmbio permanente desde o final da Guerra Civil (1865). Esse processo foi se acentuando, envolvendo não só intelectuais, mas variados setores da elite, preocupados com uma cultura cosmopolita e sofisticada (Simon, 1998). Sabemos que Gilberto Freyre já tinha um perfil intelectual se delineando quando parte para Nova Iorque, mas lá, ainda muito jovem, teve oportunidade de ampliar, significativamente, o seu quadro de referências, tornando-se um sintetizador e um inovador. A cultura e suas relações com a personalidade individual, certamente, foi um dos eixos fundamentais da construção de seu trabalho. Antropólogos contemporâneos seus como Edward Sapir, Ruth Benedict e Margaret Mead, influenciados, mais ou menos diretamente, por Franz Boas, às vezes dialogando com a psicanálise, desenvolveram estudos ereflexões sobre esse tema. Cabe, no entanto, a Freyre um lugar de particular destaque, devido à ousadia de sua interpretação do Brasil e dos brasileiros. Ele fará aanálise de uma sociedade complexa moderno-contemporânea, extensa geograficamente, com milhões de habitantes de diferentes origens e características, espalhados por cidades e campos. Os trabalhos do grupo de Colúmbia, ligados ao que veio a ser conhecido como Escola de Personalidade e Cultura, até os anos 1930, tinham, como referência principal, sociedades tribais, tradicionais e de pequena escala, como nos estudos de Margaret Mead na Nova Guiné e de Ruth Benedict com índios norte-americanos. Mais tarde, esta fará seu famoso trabalho sobre o Japão, enquanto Mead escreverá sobre a sociedade norte-americana propriamente dita (ver referências bibliográficas). Outros discípulos de Boas serão também referências, como Lowie, Herskovitz, Kroeber e o amigo e especial interlocutor Rüdiger Bilden.


Saliente-se que Freyre não só manteve, mas expandiu seus interesses em literatura, cultura e arte em geral. Assim, não só dedicou-se à literatura de língua portuguesa, do Brasil e Portugal, mas também à espanhola, francesa, inglesa e italiana (ver Bastos, 2003; e Pallares-Burke, 2005). Entre os seus próprios trabalhos, não posso deixar de relembrar a conferência que fez, já aos 84 anos, sobre Camões. Nela, explora a vocação de antropólogo do grande bardo português (1984). Quanto à Espanha, um dos exemplos mais interessantes é a análise que Elide Rugai Bastos faz das afinidades de Freyre com a obra de Ganivet, particularmente Granada LaBella, além das relações com as obras de Baroja, Unamuno e Ortega y Gasset. Embora não tivesse o mesmo domínio direto da língua, também freqüentou autores alemães e russos. Esteve sempre ligado às preocupações de uma história da cultura e às reflexões sobre o desenvolvimento e transformações da sociedade mundial. O seu cosmopolitismo intelectual e existencial beneficiou-se não só de leituras, mas das diversas viagens que fez no decorrer de sua longa vida. Interessou-se pelos assuntos mais variados e por diferentes perspectivas de aproximação da condição humana, distanciando-se do perfil de especialista fechado em um compartimento acadêmico. Destaque-se, por exemplo, o seu enorme interesse nos pré-rafaelitas e na obra de Walter Pater. Entre seus interesses literários mais notórios, cita-se Marcel Proust, não só pelo seu valor literário intrínseco, mas pela maneira sofisticada com que lidava com o tema da memória e das emoções. Nesse território, Bergson certamente foi outra referência importante para Freyre. Sabemos que, através do pai, teve acesso a clássicos da Antiguidade. Leu a Bíblia, foi leitor de Shakespeare, Montaigne, Dostoievski, Balzac, Goethe, Tolstoi, Thomas Mann, Eça de Queiroz, Machado de Assis, Chesterton, Eugene O’Neill, entre tantos outros. Foi incentivador de José Lins do Rego. Não devemos esquecer também as suas incursões no território da ficção como, já em idade mais avançada, o seu Dona Sinhá e o Filho Padre, além de seu permanente interesse pela pintura, com várias exposições realizadas. O que importa é menos listar todos os escritores e filósofos que leu especificamente, mas ter idéia do universo cultural em que se movia, com essa forte dimensão literário-humanista que marcou sua carreira e perspectiva.


A relação de Gilberto Freyre com a universidade, no Brasil, foi bastante complexa e às vezes contraditória. Como sabemos, freqüentou universidades nos EstadosUnidos e na Europa. Graduou-se em Baylor, no Texas, e fez seu mestrado emColúmbia, em Nova Iorque. Conheceu, visitou e teve inúmeras interações e atividades em outros centros, como Stanford, Oxford, Sorbonne, Coimbra, etc. No Brasil, além de sua passagem pela Escola Normal, ofereceu um curso na Faculdade de Direito de Recife e depois, chamado por Anísio Teixeira, participou da importante experiência da Universidade do Distrito Federal, no Rio de Janeiro, onde lecionou sociologia e antropologia (1935-1937). Depois disso, suas relações com a universidade brasileira foram se tornando conjunturais e efêmeras. Deu conferências, palestras, foi homenageado e participou de eventos. Asua atividade de autor, pesquisadore escritor foi progressivamente dirigida para a Fundação Joaquim Nabuco, em Pernambuco, que criou e liderou por muitos anos. Freyre teve uma formação acadêmica significativa, em que freqüentou cursos, disciplinas, escreveu trabalhos e produziu uma importante dissertação de mestrado Vida Social no Brasil em Meados do Século XIX (1922), uma das origens de Casa Grande & Senzala. Vale lembrar a importância da antropologia física da época, inclusive na própria obra de Boas. Freyre estudou diretamente com mestres ou leu trabalhos que lidavam com biologia, cultura e sociedade. Mas frise-se que sempre manteve uma dimensão autodidata, que lhe dava uma liberdade para circular entre os diferentes círculos e áreas de conhecimento.Ou seja, além de viver durante um período das primeiras décadas doséculo XX, em que havia maiores possibilidades de trânsito, ele distinguia-se, por características pessoais, como um permanente viajante entre diferentes mundos.


Ressalte-se, também, que durante grande parte de sua vida, Freyre escreveu regularmente para a imprensa, jornais e revistas. Além disso, manteve sempre intenso contato e várias amizades com o meio artístico, não necessariamente ligado à vida acadêmica. Assim, no Brasil, podem-se citar os poetas Manuel Bandeira e Carlos Drumond de Andrade, o compositor Heitor Villa-Lobos, os romancistas José Lins do Rego e Jorge Amado, os pintores Cícero Dias, Vicente do Rego Monteiro e Di Cavalcanti, entre tantos outros. Teve seu lado boêmio e irreverente, desde ostempos de aluno da Universidade de Colúmbia, quando freqüentava GreenwichVillage, em Recife, desde muito jovem e nas suas visitas ao Rio de Janeiro, como narra Hermano Vianna, por exemplo, no Mistério do Samba (1995). Era um membro da elite que freqüentava e circulava entre vários meios.


No decorrer dos anos 1930, depois da volta de seu exílio, posterior à Revolução que o levou, como assessor de Estácio Coimbra, governador de Pernambuco, a afastar-se do país, desenvolveu uma série de atividades de jornalismo, de pesquisa e de mobilização, como na organização do Congresso Afro-Brasileiro de1935. Aliás, desde o seu período de estudante nos Estados Unidos, nos anos 1920, enviava regularmente textos para a imprensa brasileira. A família de Freyre foi vítima de perseguições e sofreu prejuízos de diversas ordens na Revolução de1930. Suas relações com o governo Vargas, particularmente depois do Estado Novo, eram de claro antagonismo, embora suas relações pessoais, como membro da elite pernambucana, lhe garantissem uma certa cobertura, o que não impediu que chegasse a ser preso e fichado. Suas atividades políticas sempre foram intermitente se, por muitos, consideradas contraditórias. Teve momentos de clara oposição à União Soviética e aos comunistas, mas dialogava e tinha relações com autores marxistas, como Astrogildo Pereira e Caio Prado Júnior. Em algumas situações históricas foi visto como crítico e considerado adversário de certas esquerdas e também mal visto por suas relações, em geral cordiais, com o salazarismo em Portugal. Frise-se que, em momentos decisivos, tomou posições claramente antagônicas e de combate, como nos casos do nazi-fascismo e do stalinismo. Foi, muitas vezes, feroz crítico do Partido Comunista Brasileiro, embora mantivesse, como mencionei, relações intelectuais respeitosas com intelectuais e pensadores marxistas. É preciso tomar cuidado também para evitar simplificações e esquematismos para compreender vida e obra tão complexas.


O tão famoso luso-tropicalismo e a valorização da miscigenação foram não só muitas vezes descontextualizados, como rejeitados por variados atores de diferentes orientações. Em Portugal, foi mesmo desconsiderado por autores que propugnavam pela separação das raças, especialmente nas colônias africanas, opondo-se a toda idéia de mistura (ver Larreta e Gucci, 2007). São conhecidas e ainda atuais as críticas e denúncias de uma postura considerada excessivamente tolerante e mesmo encobridora do racismo no Brasil. Não há dúvida que a sua posição sobre essa temática apresenta múltiplas facetas e, eventualmente, contradições. No entanto, certamente foi, desde os seus tempos de Colúmbia e sob a crescente influência de Boas, um vigoroso antiarianista, valorizando o papel e as contribuições dos diferentes grupos étnicos e culturais na constituição da sociedade brasileira. Além da mais evidente defesa dos africanos e seus descendentes, cabe enfatizar o valor que conferiu aos portugueses, muitas vezes, especialmente na época da ascensão do nazi-fascismo, considerados racialmente impuros. Além disso, no Brasil eram e até hoje ainda são, em vários contextos, considerados maus colonizadores. A sua interpretaçãopositiva da presença portuguesa no Brasil e no mundo valeu-lhe desconfiança e mesmo hostilidade por setores de oposição aos regimes autoritários lusos, particularmente o salazarismo. Freyre foi mesmo acusado de justificar o colonialismo português na África, em momentos de maior conflito e tensão. Ressalte-se, por outro lado, a sua contribuição intelectual e militância ativa em torno da importância do regionalismo tendo, como preocupação, o seu lugar na construção da nação (ver Continente e Ilha, 1943). Valorizou as especificidades regionais mas criticou os exageros do determinismo geográfico, de possíveis implicações racistas.


Essas observações multifacetadas e variadas da trajetória e interesses de GilbertoFreyre creio que são importantes para uma melhor compreensão de sua obra, cujo marco clássico inicial é Casa Grande & Senzala, em1933. Não é umproduto isolado de um autor enfurnado em seu mundo restrito, mas de um intelectual que desenvolveu extensas pesquisas, sustentadas por uma perspectiva muito própria e singular. Essa resultou de sua capacidade de sintetizar com originalidade diversas correntes de pensamento e pontos de vista. Podemos falar de um cosmopolitismo que lhe permitiu transitar, como já mencionámos, entre Lamarck, Darwin, Spencer, Marx, Simmel, Weber, Boas, Giddings, William Thomas, Park, Dewey, Mencken,Bergson, Oliveira Lima, Euclides da Cunha, Roquette Pinto, entre outros. Neste sentido, trata-se de um autor que traz o melhor de um ecletismo criativo, pois lê, analisa e inova. Por outro lado, não se manteve numa posição estática, num permanente processo de enriquecimento e incorporação de novos elementos a sua interpretação. Isso pode ser lido, dependendo do interesse e ponto de vista, como sinal de contradição e incoerência mas, de outro, como manifestação de riqueza e plasticidade. Embora sua obra fosse produzida por um longo período de tempo, é inegável que Casa Grande & Senzala (1933) e Sobrados e Mucambos (1936), sem prejuízo da importância de outros como Nordeste (1937) e Ordem e Progresso (1959), constituíram-se nas balizas mestras de todo o seu trabalho. Nelas pode-se perceber a combinação da erudição do scholar, com o talento criativo deumdos maiores escritores da língua portuguesa. Suas análises cuidadosas associam-se a suas intuições perspicazes, através de um estilo cativante e absorvente. Em termos de ciências sociais, certamente foi influenciado pelo evolucionismo, com a forte marca de Spencer, dialogou com o marxismo, usou fartamente a ecologia de inspiração de Chicago e, de modo intenso, o culturalismo de Franz Boas e de seus seguidores. Desde sempre aparece, como ficou evidente para vários dos autores aqui citados, a buscade um equilíbrio de antagonismos na análise da sociedade brasileira, com implicações para a teoria sócio-antropológica como um todo. Jamais apresentou o Brasil como um “paraíso tropical”, nem isentou-o de conflitos de várias naturezas. Mas buscou compreendê-lo em termos de sua constituição histórico-cultural.


Como é de conhecimento público e notório, um dos pontos altos e sempre polêmicos do seu trabalho foi a temática das relações raciais. É preciso distinguir o que ele realmente escreveu, do que foi divulgado e vulgarizado por seguidores eadversários. Não negou a existência de racismo na sociedade brasileira, mas procurou salientar as peculiaridades aqui existentes, contrastantes com países como osEstados Unidos. A sua contribuição para o estudo de gênero é tão importante queaté hoje é insuficientemente valorizada. Suas análises sobre o mundo feminino do Brasil tradicional são de uma importância ímpar e de absoluta originalidade. Do mesmo modo, as suas investigações sobre as gerações, as tensões entre jovens e velhos, a ascensão do mulato e do bacharel constituíram-se em contribuição preciosa para a compreensão de processos de mudança social, longe, portanto, de fixar-se num modelo estático e rígido. Inegavelmente, identificou na família patriarcal o eixo fundamental da sociedade brasileira, tema que suscitou e suscita até hoje interessantes discussões sobre as suas relações com o poder público e com o Estado. Em Sobrados e Mucambos, particularmente, desenvolve um trabalho de vanguarda para o estudo da vida urbana, precursor de desenvolvimentos em antropologia e sociologia das décadas seguintes. O foco no cotidiano, no dia-a-dia, no mundo doméstico, no que poderíamos chamar hoje de micro-sociologia, não o afastou de uma visão ampla, de longue durée da sociedade brasileira e de suas relações com o mundo em geral.


É interessante, com uma perspectiva temporal mais longa, identificar como Freyre preocupou-se com as relações de produção, de alguma maneira dialogando com Marx, com as relações entre religião, valores e capitalismo, com Weber, e com os processos interacionais, com Simmel. As biografias e as trajetórias individuais não são apenas pretextos, mas focos privilegiados de análise no decorrer de toda a sua obra.


Procuro chamar atenção, baseando-me na contribuição dos diversos autores que citei no início desse texto, que a vida e a produção de Gilberto Freyre são, como ele próprio fazia questão de dizer, extremamente complexas e necessariamente contraditórias. A vastidão de seus interesses e as mudanças em sua vida fizeram-no, por exemplo, estar em certos períodos mais preocupado com a atividade política e em grande parte dela, retirando-se para sua casa em Apipucos e para a Fundação Joaquim Nabuco, tentando posicionar-se au-dessus de la mêlée. Oscilava, como ele próprio se apresentava, entre um certo aristocratismo e um anarquismo intelectual. Durante o Estado Novo getulista, de conotações fascistas, assumiu posições de forte oposição, elegendo-se depois deputado na Constituinte pós-democratização. Já no regime militar (1964-1985) foi alvo de críticas por não se lhe opor, como alguns esperavam, e porque teria assumido posições consideradas antiesquerdistas.


Inegavelmente, Casa Grande & Senzala produziu um grande impacto no Brasil, escandalizando setores mais conservadores pela sua linguagem e temáticas, mas obtendo grande sucesso junto à maioria dos críticos e comentadores. Os seus méritos foram amplamente reconhecidos no exterior, com traduções em várias línguas, como inglês, francês, espanhol e italiano. É notória a recepção altamente positiva de historiadores do grupo dos Annales, como Braudel e Febvre. No entanto, no seu próprio país, nos anos que se seguiram, nem sempre encontrou apoio e compreensão.


Os seus diálogos e dificuldades de interação com a universidade brasileira, depois da frustrada experiência da Universidade do Distrito Federal, reprimida pelo Estado Novo getulista, renderam muitas histórias e polêmicas. O que fica evidente,a partir da leitura da produção que temos mencionado, é que há idas e vindas e constante ambigüidade nesse processo. Encontramos correspondência amistosa e aparentemente construtiva entre Florestan Fernandes, da USP, e Gilberto Freyre. Tivera ótimas relações com Fernando de Azevedo, com quem trocou cartas e manteve contato. No entanto, há momentos de afastamento e mesmo esfriamento nas relações com o grupo Uspiano, cujas referências e objetivos fizeram de GilbertoFreyre, em algumas ocasiões, alvo de críticas e objeto de afastamento. Ele, por sua vez, teve a oportunidade de acionar alguma ironia e sarcasmo em relação ao cientificismo mais ou menos esquerdizante de seus colegas de Sudeste. As críticas a Freyre, nesse contexto, passaram-se em vários níveis. Uma, em nome do rigor de propalado método científico, em princípio baseado em pesquisas exaustivas, seria a rejeição de seu ensaísmo. Este ficaria na fronteira do literário e, portanto, considerado ultrapassado pelos cânones de uma modernidade científica. Em termos teóricos, uma combinação entre funcionalismo e marxismo, nem sempre clara e explicitada, rejeitava o culturalismo de Freyre, também considerado anacrônico e conservador. Percebe-se que há mudanças e transformações nesse campo de disputa. Autores como Antônio Cândido (1969) reconhecem a enorme contribuição da obra deFreyre, especialmente de Casa Grande & Senzala. A esse propósito caberia analisar com mais vagar as relações entre Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda, em alguns momentos muito próximos e em outros muito afastados, mesmo adversários. Embora sempre tenha cativado admiradores em diversas disciplinas e áreas de conhecimento, o fato é que, por preconceito e intolerância, várias gerações de estudantes não tiveram acesso à obra de Freyre.


A antropologia, produzida no Brasil, especialmente a partir de meados dos anos 1970, tem desempenhado um papel central na reavaliação da obra freyriana e de sua riqueza. A combinação de pesquisa histórica, antropológica, sociológica tem, justamente, permitido captar a complexidade e sutilezas dessa vasta produção. Inegavelmente, os trabalhos de Roberto DaMatta foram cruciais nesse processo de redescoberta. O Guerra e Paz, de Benzaquen de Araújo, realizou importante integração de estudos de história da cultura e de antropologia. Sebastião Vila Nova situou com propriedade e preciosos dados o papel da Escola de Chicago na construção do projeto freyriano. Elide Rugai Bastos tem cada vez mais refinado a visão de um Gilberto Freyre humanista e complexo. Peter Burke, e mais recentemente Maria Lúcia Pallares-Burke, com seu Gilberto Freyre: Um Vitoriano nos Trópicos ampliam e aprofundam o nosso conhecimento sobre a vida e obra de Freyre. Registre-se a publicação de Gilberto Freyre: UmaBiografia Cultural, de Larreta e Gucci, que traz novos elementos e contribuições para um debate que apresenta facetas instigantes e capaz de produzir, ainda, fortes polêmicas (2007). Hermano Vianna tem se apropriado, de modo bastante estimulante, de suas leituras freyrianas em vários contextos, sobretudo relacionando níveis de cultura.


Embora faça parte do nosso senso comum a idéia de que todos os autores são, de alguma forma, singulares, o caso de Gilberto Freyre é, certamente, emblemático. Teve uma longa vida. Conheceu e transitou por vários mundos e foi um grande criador em várias temáticas e áreas de investigação. Dificilmente encontraremos na nossa galeria de cientistas sociais uma obra tão instigante e desafiadora. Qualquer tentativa de simplificá-la ou de rotulá-la é um empobrecimento da vida intelectual. Essa é, provavelmente, a maior contribuição desse conjunto de trabalhos produzidos nos últimos anos. A par de suas diferenças e mesmo divergências, resgatam a obra de Freyre como referência fundamental e leitura obrigatória, não só para os estudiosos da sociedade brasileira mas, também, como marco da construção das ciências humanas no século XX.




* Professor Titular e Decano do Departamento de Antropologia do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

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Thomaz, Omar Ribeiro (2001), Gilberto Freyre e o Esforço de Superação de Conflitos, em Gilberto Freyre, Interpretação do Brasil, organização de Omar Ribeiro Thomaz, SãoPaulo, Companhia das Letras.

Velho, Gilberto, e outros (1995), “Cientistas do Brasil: entrevista de Gilberto Freyre”, em Ciência Hoje, Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, Cientistas do Brasil:Depoimentos, São Paulo, SBPC, pp. 117-123.

Velho, Gilberto (2000), “O significado da obra de Gilberto Freyre para a antropologia contemporânea. ”, em Seminário Internacional Novo Mundo nos Trópicos, Recife, Fundação Gilberto Freyre, pp. 115-116.

Velho, Gilberto (2008), “O cientista social Gilberto Freyre”, em Elide Rugai Bastos, JuliaPeregrino e Pedro Karp Vasquez (orgs.), Gilberto Freyre, Intérprete do Brasil, SãoPaulo, Museu da Língua Portuguesa, pp. 39-46.

Vianna, Hermano (1995), O Mistério do Samba, Rio de Janeiro, Jorge Zahar.

Vila Nova, Sebastião (1995), Sociologias e Pós-Sociologia em Gilberto Freyre, Recife, Núcleode Estudos Freyrianos, Fundaj, Ed. Massangana.


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Resumo/ abstract/ résumé/ resumen

Gilberto Freyre: trajetória e singularidade

A obra de Gilberto Freyre vem sendo cada vez mais analisada e reavaliada por diversos autores. São diferentes pontos de vista e perspectivas, ligados a linhas de pesquisa e áreas de conhecimento diversificadas. Fica ressaltada, através desses trabalhos, a grande complexidade e riqueza da obra de Freyre, cuja formação e trajetória têm merecido um aprofundado conjunto de pesquisas. Um dos resultados mais significativos desses trabalhos é a constatação da necessidade de rejeitar explicações simplistas e rótulos para uma obra tão extensa e complexa. Focaliza-se também as relações do autor com o sistema universitário, assim como a importância e singularidade de sua trajetória e originalidade de seus escritos.

Palavras-chave Brasil, complexidade, cultura, Gilberto Freyre.

Gilberto Freyre: trajectory and singularity

The work of Gilberto Freyre has been increasingly undergoing analysis and reassessment by various authors. There are different perspectives and points of view, connected with a diversity of research lines and areas of knowledge. What these effort shave brought into relief is the great complexity and richness of the work carriedout by Freyre, whose education and trajectory have deserved an in-depth bodyof research. One of the most significant results of the latter work is the finding thatlabels and simplistic explanations for such an extensive and complex productionneed to be rejected. The focus also falls on the author’s relationship with the university system as well as on the importance and singularity of his work and the originality of his writings.

Key-words Brazil, complexity, culture, Gilberto Freyre.


Gilberto Freyre: trajectoire et singularité

L’oeuvre de Gilberto Freyre est de plus en plus analysée et réévaluée par différent sauteurs. Il s’agit d’approches et de points de vue différents, liés à des lignes de rechercheet des domaines de connaissance diversifiés. Ces travaux soulignent lagrande complexité et la richesse de l’oeuvre de Freyre, dont la formation et la trajectoire ont fait l’objet d’un ensemble de recherches approfondies. L’un des résultats les plus significatifs de ces travaux est le constat de la nécessité de rejeter les explications simplistes et les étiquettes pour une oeuvre aussi vaste et complexe. Ils soulignentaussi les relations de l’auteur avec le système universitaire, ainsi quel’importance et la singularité de son parcours et l’originalité de ses écrits.

Mots-clés Brésil, complexité, culture, Gilberto Freyre.

Gilberto Freyre: trayectoria y singularidad

La obra de Gilberto Freyre está siendo analizada y reevaluada cada vez más por diversos autores. Son diferentes puntos de vista y perspectivas, vinculados a líneas de búsqueda y diferentes áreas de conocimiento. Se destaca, a través de esos trabajos, la gran complejidad y riqueza de la obra de Freyre, cuya formación y trayectoria han merecido un amplio conjunto de búsquedas. Uno de los resultados más significativos de esos trabajos es la constatación de la necesidad de rechazar explicaciones simplistas y rótulos, para una obra tan extensa y compleja. Se destaca también, la relación del autor con el sistema universitario, así como la importancia y singularidad de su trayectoria y la originalidad de sus escritos.

Palabras-llave Brasil, complejidad, cultura, Gilberto Freyre.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

'É preciso elevar o padrão ético'

Gilberto Velho critica Lula por defender aliados suspeitos de atos ilícitos
ENTREVISTA (por Cláudia Lamego)
Ao defender aliados envolvidos em escândalos e investigados por crimes, o presidente Lula legitima um padrão ético e moral discutível no país. A opinião é do antropólogo Gilberto Velho, que criticou ontem Lula por relativizar supostos crimes praticados na República. Para ele, é preocupante, num “país que vive uma crise de valores”, que Lula minimize a prática de atos ilícitos. Segundo o antropólogo, as declarações de Lula são movidas por seus interesses políticos. “Tudo em nome de um projeto político e pessoal”, lamenta.
O GLOBO: Depois de pedir ao Ministério Público que tenha cuidado com o a biografia dos investigados, o presidente Lula disse ontem que é preciso relativizar os crimes. O que o senhor achou dessa declaração?
GILBERTO VELHO: Para começar, não cabe ao chefe do Executivo orientar os outros poderes sobre como eles devem proceder. Isso é preocupante com relação à distribuição do poder no país. Ele não pode ir à posse do procurador-geral e orientar o trabalho dos procuradores. A outra questão é que, ao minimizar faltas graves dos aliados, ele está legitimando um padrão moral e ético que é no mínimo discutível. O que está se propondo é que tudo seja investigado, não está se condenando com antecedência. Agora, houve uma série de episódios nos quais não havia dúvida sobre faltas e ilegalidades, e ele, mesmo assim, defendeu. Qual é o padrão moral que está sendo sugerido pelo presidente? É de um pragmatismo... não sei como classificar isso. É algo como a idéia de que é possível minimizar meios ilícitos, que são condenáveis sob qualquer perspectiva ética mais séria e conseqüente.
O GLOBO: O presidente dá mau exemplo ao defender suspeitos de atos ilícitos?
GILBERTO VELHO: Sim. Não é isso o que se espera de um chefe de Estado, que tem força e popularidade grandes, num país que vive uma crise de valores imensa. É um pouco decepcionante que ele não esteja demonstrando preocupação com a corrupção, sobretudo quando seus interesses políticos são prejudicados. É lamentável que ele confunda seus interesses com os do país. Tudo em nome de um projeto político e pessoal.
O GLOBO: Num país com tanta impunidade, qual o impacto desse tipo de conduta do presidente?
GILBERTO VELHO: Há muito tempo venho chamando atenção sobre os deslizes, irregularidades, falta de responsabilidade e de compromisso com a verdade no nosso país. Aí, vem o presidente e minimiza tudo. Ele, como pessoa, pode ter suas opiniões, e podemos discordar delas. Mas, falando como chefe de Estado, é preciso elevar o padrão ético do país. A pergunta que temos que fazer é: é importante ou não que os governantes pautem seus comportamentos pela ética? No fundo, funciona aqui ainda a máxima de que os fins justificam os meios. Achar que vale tudo porque é melhor para seu grupo ou partido é muito assustador.
O GLOBO: E quando o presidente aparece ao lado de políticos que ele mesmo já condenou no passado, como o senador Fernando Collor?
GILBERTO VELHO: Como é possível ele aparecer abraçado com o Collor, com o Renan, com o Jader Barbalho? O país se mobilizou contra o Collor, que foi eleito agora pelo clientelismo. E Lula se alia a esse clientelismo mais atrasado. Então, o presidente passa uma esponja sobre tudo o que aconteceu e toda aquela mobilização da população não tem mais valor? É muito triste.

PUBLICADA EM “O GLOBO”, 24/07/2009.

O BAILE E A CIDADE

Gilberto Velho*
Um dos principais desafios da vida na grande cidade contemporânea é o convívio das diferenças. Vivemos em metrópoles complexas, diferenciadas, com múltiplos estilos de vida, gostos e costumes. Os exemplos são infindáveis e passam por trabalho, religião, origem regional, preferências políticas, esportivas, lazer em geral, etc. A questão do funk volta à tona com a retomada de antigas acusações que o associam à criminalidade e à violência. Por outro lado, hoje existe um movimento cultural que defende e valoriza o funk não só como música, mas como estilo de vida, atitude e expressão artística. Certamente, uma política exclusivamente repressiva e policial está condenada ao insucesso e só acirrará tensões e conflitos sociais. Parece inquestionável que existem situações em que criminosos estão presentes nas festas funk, eventualmente patrocinando-as. Caso existam situações de violência e crimes, cabe à polícia investigar e, caso comprovado, tomar providências. Mas a generalização apressada e simplista significa desqualificar, estigmatizando todo um conjunto de manifestações associado ao lazer, à festa, e à sociabilidade de boa parte da população do Rio de Janeiro.No entanto, também é indiscutível que há um problema de convivência entre o horário e o som poderoso desses bailes em relação as suas vizinhanças, seja dentro ou fora das comunidades. Diariamente, lemos nos jornais cartas de leitores com reclamações quanto à impossibilidade de repouso e sono de milhares de pessoas prejudicadas pelo total desrespeito às normas básicas de convivência. Nos fins de semana isso fica mais evidente. Na sexta-feira, por exemplo, milhares de moradores de Copacabana e Ipanema são obrigados a ouvir em alto volume o som que vem dos morros.
Normalmente, começando por volta das dez horas da noite, isso se prolonga até seis horas da manhã. Parece-me um caso exemplar para buscar formas de diálogo e de aperfeiçoar nossos padrões de cidadania com pretensões à civilidade. É claro que a solução não é uma operação policial com armas pesadas mas passa, necessariamente, pela ação do poder público. Este deveria desempenhar o papel de mediador entre os freqüentadores e patrocinadores dos referidos bailes e os moradores de suas vizinhanças para se chegar a algum tipo de acordo e negociação. Diga-se, de passagem, que o desrespeito à lei do silêncio não é exclusivo dos bailes funk, mas acontece, por exemplo, nos famosos plays de prédios de classe média, embora sem a mesma intensidade e freqüência. Agora mesmo, no período de festas juninas, aceitou-se como normal os estouros de bombas e foguetes por parte de petizes estimulados por seus devotados pais e avós. Existe, assim, um problema geral de falta de civilidade e capacidade de convivência e respeito mútuo dentro de nossa cidade.
Os bailes funk, sem dúvida, como estão transcorrendo hoje, constituem um problema de convivência com vizinhos que simplesmente querem dormir e se recuperar de suas atividades rotineiras. Mas é fundamental que para lidar com essa questão não se retorne a um padrão meramente repressivo e policialesco. Se há crime e violência comprovados, providências têm de ser tomadas pela autoridade policial. O grande avanço seria estabelecer canais de comunicação e de diálogo que permitissem que as diferenças fossem respeitadas sem que fossem agressões de um grupo contra outro.
* Antropólogo
PUBLICADO EM "O GLOBO", 20/07/2009, p. 7.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

RUTH CARDOSO

Gilberto Velho*


Está completando um ano do falecimento da doutora Ruth Cardoso. Era pessoa sóbria e discreta, avessa a homenagens. Portanto, relembrá-la é, sobretudo, sublinhar seus estilo e atitude que são cada vez mais raros em uma sociedade em que o exibicionismo e o auto-elogio são moeda corrente. Vive-se o espetáculo do mau gosto e do oportunismo, em contraste com o trabalho e generosidade de Ruth Cardoso que produziam resultados, sem maiores estrépitos e foguetórios. Como acadêmica, sempre se distinguiu pelo respeito às obras realizadas e, paralelamente, pela curiosidade e estímulo ao novo e à ousadia. Isso não impedia que sustentasse pontos de vista, exercesse a crítica, preocupada com o diálogo em que a civilidade não se opunha à firmeza.
Sempre esteve voltada para questões de política social, sem abrir mão de rigor acadêmico. Orgulhava-se de sua vivência universitária, mas isto jamais a impediu de estar atenta e engajada nas grandes questões políticas, como a resistência contra a ditadura. Estudou e participou de movimentos em defesa de minorias e setores oprimidos da sociedade. Entre outras causas, há que destacar a sua atuação na política de gênero e o seu engajamento nas lutas das mulheres.
Como esposa de presidente da República, reinventou o papel oficial, desempenhando tarefas em que sua condição de cientista social e cidadã engajada contribuiu, decisivamente, para inovações e fortalecimento de políticas sociais. Prosseguiu essas atividades de outras formas, uma vez encerrado o mandato de Fernando Henrique Cardoso. Até sua morte, permanecia atuante, construindo instrumentos para enfrentar a pobreza e a desigualdade social.
Deixou exemplos e lições. Quem a conheceu e acompanhou sua trajetória gostaria que, de algum modo, essa memória permaneça viva, se contrapondo à vulgaridade da corrupção, do imediatismo e da mesquinharia política.


*Antropólogo

VIOLÊNCIA E IMPUNIDADE

Gilberto Velho*



Nos últimos dias a cidade do Rio de Janeiro viveu mais alguns episódios assustadores de violência que se somam a tantos outros nos últimos anos. O novo assalto e a agressão a Marcelo Yuka, o casal sendo arremessado da Avenida Niemeyer, depois de ser seqüestrado e alvo de repetidas agressões, universitários baleados, confirmam que continuamos vivendo uma situação de insegurança e vulnerabilidade.


Não há como desprezar as características individuais que tornam alguns bandidos, especialmente cruéis e sádicos. Pessoas são assaltadas, roubadas, agredidas e, mesmo sem reagir, freqüentemente, são assassinadas com requintes de brutalidade. “Tribunais do crime” podem até atuar contra criminosos que ultrapassem ou quebrem regras do jogo, confirmando o poder exercido pelas redes e gangues de bandidos. No entanto, é preciso enfatizar, mais uma vez, que o fenômeno que estamos enfrentando é o do desenvolvimento incontrolável de uma cultura da violência. Esta é produto da combinação de diversas variáveis, como a desigualdade social, a desordem urbana, a corrupção de órgãos públicos, a ineficiência e cumplicidade de setores da polícia com o próprio crime e a ausência de políticas sociais contínuas e sérias como na escandalosa situação da área da saúde. Por mais que já tenha sido analisado e denunciado, um dos pontos focais, talvez o principal, seja a falência da educação, particularmente a pública. As péssimas condições de trabalho dos professores e a precariedade material produzem um ensino totalmente inadequado para dar um mínimo de esperança e condições de sociabilidade para a maior parte da população pobre do país. No Rio de Janeiro, isto é flagrante e são mais do que conhecidas as histórias de situações que inviabilizam o funcionamento minimamente razoável de escolas de ensino básico e médio.


Não há dúvida de que o que se passa na nossa cidade e no nosso estado depende, em grande parte, do governo federal, da sua incompetência e falta de vontade de empenhar-se com vigor para debelar ou, pelo menos, melhorar situação tão dramática que, entre outras conseqüências, reflete-se na cultura da violência. Esta é fomentada nas favelas, na periferia e nas próprias escolas. Não nos iludamos alocando todos esses problemas às camadas mais pobres da sociedade. Embora estas vivam de modo mais intenso e rotineiro o aprendizado da crueldade na vida cotidiana, também em camadas médias e elites temos múltiplos exemplos, entre jovens, de demonstrações de irresponsabilidade social e indiferença humana. Já são numerosos os episódios de brutalidade exercida por filhos de famílias de quem poderia se esperar um compromisso ético elementar.


Todos os fenômenos na vida social, de alguma maneira, se ligam uns aos outros. É impossível ignorar que a impunidade pública de infratores e criminosos, incluindo políticos e personagens notórios contribui para o quadro geral de descrença dos valores básicos de cidadania. Este fenômeno continua sendo um dos principais desafios para a construção da democracia em nosso país.


* Antropólogo



PUBLICADO EM O GLOBO, 12/03/2009.

A IMAGEM DO EXÉRCITO

Gilberto Velho*

O trágico episódio do Morro da Providência, além da brutal violência que se soma a tantas outras, traz à tona uma questão fundamental para a frágil democracia brasileira – o lugar das Forças Armadas. Não só o Exército, mas a Marinha e a Aeronáutica, ficaram com suas imagens gravemente conspurcadas pela atuação de seus órgãos de segurança durante o regime militar, produto de uma conspiração que uniu setores militares com variados grupos da sociedade civil. O pior nesse período foi a ação desencadeada pelos famosos “setores radicais” que, com o beneplácito de alguns oficiais-generais, permitiram que oficiais de diversas patentes comandassem operações que envolveram seqüestros, tortura e assassinatos. Isto não significa que ignoremos que setores mais radicais de oposição ao regime militar, também possam ter utilizado métodos truculentos e extremamente agressivos. No entanto, os militares de que falamos, utilizaram recursos, instalações, armas e todo um sistema oficial como pano de fundo, para implementar medidas repressivas que ultrapassavam qualquer limite de ética e de civilidade. Sabemos, também, que grande parte do oficialato não foi cúmplice dessas ações e muitos, inclusive, as condenaram. O fato é que além da pressão da sociedade civil e de outros países e agencias internacionais, houve uma reação a partir das próprias Forças Armadas, especialmente no período do Governo Geisel, para controlar as ações violentas que rompiam não só com a democracia, mas com os próprios princípios da hierarquia militar. É, pelo menos, discutível que torturadores e assassinos não tenham sido julgados. Mas há uma série de argumentos em torno da idéia de uma anistia “ampla, geral e irrestrita”.
Com a volta dos governos civis, houve uma lenta e progressiva mudança das atitudes e postura dos representantes das Forças Armadas. Cada vez mais pareceu haver uma nova concepção de suas relações com a sociedade civil e com os valores democráticos em geral. Progressivamente, foi se restabelecendo uma imagem mais positiva e respeitável em que as ações construtivas, filantrópicas, de apoio social, de socorro a emergências e catástrofes, participação em obras de interesse nacional melhoraram significativamente a imagem dos militares perante a opinião pública. Assistimos, inclusive, a significativos gestos de reconciliação e reaproximação com a sociedade civil.
Portanto, uma ação criminosa comandada pro um oficial do Exército, em circunstâncias, no mínimo chocantes, põe em cheque essa imagem lentamente reconstruída. Pergunta-se como é possível haver uma quebra na hierarquia de comando que permite a uma pessoa que está sendo rotulada de “desequilibrada” desencadear um processo tão monstruoso que levou ao massacre e morte de três jovens. Esse argumento já foi utilizado em outros tempos. Não há como tentar disfarçar e dizer que a instituição não foi atingida por uma ação isolada. É necessário que isso seja comprovado de modo exemplar para permitir até que, ao repensar a gravidade da situação de segurança pública no Brasil, possa ser encontrado um lugar adequado para as Forças Armadas.

* Antropólogo

PUBLICADO EM O GLOBO, 30/06/08.